NOTÍCIAS
Fim da escala 6x1 muda escalas e custos dos supermercados
Com a mudança, supermercadistas terão de rever a distribuição das equipes, os custos com mão de obra e a organização dos turnos
Foto: Ton Molina/Agência Estado
Manter os caixas funcionando, os estoques abastecidos e os setores de perecíveis atendendo normalmente, com dois dias de folga por funcionário a cada semana. Essa será a nova realidade dos supermercados brasileiros após a aprovação do fim da escala 6x1 pelo Senado, em 14 de outubro, medida promulgada nesta sexta-feira (16).
✅ Clique aqui para seguir o canal do Portal Atibaia News
A mudança chega a um setor que emprega cerca de 9 milhões de trabalhadores diretos e indiretos e atende 30 milhões de consumidores diariamente, segundo o Ranking ABRAS 2026.
Para Vanderlei Goulart, contador e consultor empresarial, fundador e diretor-presidente da Meta Assessoria, empresa especializada em gestão contábil, fiscal com forte atuação no varejo supermercadista, a mudança representa um momento importante para rever a organização das lojas.
“O supermercado já trabalha com horários diferentes e precisa manter a operação todos os dias. O segredo será distribuir melhor as equipes, respeitar os períodos de descanso e garantir que o atendimento continue funcionando bem. Isso começa com planejamento”, explica.
O que muda e quando começa a valer
A nova regra será implementada em duas etapas. A primeira começa 60 dias após a publicação da Emenda Constitucional nº 141, em dezembro de 2026, quando a jornada máxima será reduzida de 44 para 42 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial.
A segunda fase ocorrerá 12 meses depois, em dezembro de 2027, quando o limite passará para 40 horas semanais.
Os supermercados poderão continuar funcionando aos domingos e feriados, desde que respeitadas as regras trabalhistas aplicáveis. A legislação também permite formas excepcionais de compensação mediante negociação coletiva.
“Não significa que o supermercado precisará fechar dois dias por semana. A loja poderá continuar aberta, mas será necessário organizar as folgas e os turnos de outra maneira. Quem começar essa programação agora terá mais condições de fazer uma transição tranquila”, afirma Goulart.
Como organizar a equipe sem prejudicar o atendimento
O primeiro passo é identificar os horários de maior movimento e a quantidade de funcionários necessária em cada setor. Caixas, açougues, padarias, hortifrutis e reposição possuem rotinas diferentes e precisam ser considerados individualmente.
Uma loja com 20 empregados que atualmente trabalham 44 horas semanais, por exemplo, terá 40 horas a menos disponíveis por semana na primeira fase da mudança. Em 2027, com a jornada de 40 horas, a redução chegará a 80 horas semanais.
Isso não significa necessariamente contratar dois novos funcionários. A necessidade dependerá da estrutura da loja, dos horários de funcionamento e da possibilidade de redistribuir as atividades.
“Às vezes, o supermercado tem mais funcionários em um horário de pouco movimento e uma equipe reduzida justamente quando o cliente mais precisa de atendimento. Antes de contratar, vale analisar esses números e entender onde realmente falta gente”, orienta o especialista.
A revisão também pode incluir treinamento para atividades compatíveis, aperfeiçoamento dos processos e melhor utilização dos sistemas de gestão, reduzindo tarefas repetitivas e facilitando o trabalho das equipes.
Como a nova jornada afeta os custos
A manutenção dos salários com menos horas trabalhadas exige atenção ao planejamento financeiro. Na passagem de 44 para 40 horas semanais, o custo salarial por hora aumenta matematicamente 10%, embora isso não signifique que a folha total crescerá na mesma proporção.
Para identificar os possíveis impactos, o supermercadista deve acompanhar o custo da mão de obra em relação ao faturamento, as horas extras, a produtividade e a necessidade de novas contratações.
“O dono do supermercado precisa saber quanto custa manter cada setor funcionando. Não basta olhar apenas para a folha de pagamento. É necessário cruzar essa despesa com as vendas, o movimento da loja e a quantidade de pessoas em cada turno. Assim, fica mais fácil decidir onde ajustar a operação”, explica Vanderlei.
Como organizar as folgas dentro da lei
A nova legislação estabelece dois dias de descanso remunerado por semana, sendo um deles preferencialmente aos domingos. Isso não significa que todos os funcionários deverão folgar no fim de semana ou nos mesmos dias.
Na prática, os dias de descanso podem ser distribuídos ao longo da semana, de acordo com a necessidade da operação e desde que sejam respeitadas as regras de jornada e descanso.
A emenda também permite, excepcionalmente, que acordos ou convenções coletivas estabeleçam escalas diferentes da 5x2. Nesses casos, será necessário garantir uma média de dois dias de folga por semana no mês, com pelo menos um descanso a cada sete dias de trabalho, além de realizar a compensação dentro do mesmo mês.
“O supermercado precisa olhar para a legislação e para a convenção coletiva da categoria antes de definir as escalas. A distribuição das folgas deve considerar essas regras e ser planejada com antecedência para evitar problemas trabalhistas”, esclarece Goulart.
O empresário também deverá observar as regras específicas para o trabalho aos domingos e feriados, além das convenções coletivas da categoria. A recomendação é elaborar as escalas com antecedência e manter os registros de jornada atualizados.
Preparação deve começar antes do Natal
Com a primeira etapa prevista para dezembro, a mudança coincide com um dos períodos de maior movimentação do varejo alimentar. Por isso, a recomendação é simular as novas escalas, avaliar a necessidade de reforços temporários e revisar os controles de jornada com antecedência.
O planejamento deve envolver a contabilidade, os responsáveis pelas equipes e os gestores de cada setor, considerando também as convenções coletivas aplicáveis.
“Cada supermercado tem uma realidade. Uma loja de bairro não funciona exatamente como uma grande rede. O importante é fazer as contas, ouvir os responsáveis pelos setores e montar uma escala que funcione para os funcionários e para o negócio. Quanto antes essa organização começar, melhor será a adaptação”, conclui Vanderlei.
- Acompanhe o Portal Atibaia News para mais informações de Atibaia e região.