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Atleta de Atibaia conquista bronze no Pan-Americano de Jiu-Jitsu e inspira mulheres em novo espaço de lutas na cidade

Crystal Vencovsky subiu ao pódio em Nova Jersey e abriu centro de treinamento exclusivo para mulheres e crianças, promovendo defesa pessoal, acolhimento e saúde.

Foto: Arquivo pessoal

A atleta atibaiense e professora de artes marciais Crystal Vencovsky colocou o nome de Atibaia em destaque no cenário internacional do esporte ao conquistar a medalha de bronze no Pan-Americano No Gi de Jiu-Jitsu, disputado no início do mês em Secaucus, New Jersey (EUA).

Competindo na categoria faixa-preta (Master 1, peso pena) da modalidade sem kimono, Crystal enfrentou adversárias de alto nível em um torneio, que reuniu cerca de 2.300 atletas de diversas partes do mundo entre os dias 2 e 4 de outubro.

Praticante de artes marciais desde os 4 anos de idade, Crystal acumula também a faixa-preta no judô e traz na bagagem uma sólida trajetória de dedicação ao esporte. Mas o impacto do seu trabalho vai além de levar o nome do município para suas conquistas nos pódios. Em agosto deste ano, ela inaugurou uma escola de lutas exclusiva para mulheres e crianças. O espaço foi idealizado para oferecer modalidades como Jiu-Jitsu, Judô, Muay Thai, Kickboxing e Treinamento Funcional em uma atmosfera segura, respeitosa e adaptada às necessidades femininas e infantis.

Representatividade, segurança e acolhimento nos tatames

A iniciativa de criar um centro focado no público feminino e infantil nasceu da percepção da própria atleta sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no meio esportivo — um ambiente historicamente masculino onde muitas sentem a necessidade constante de se provar, além de enfrentarem o receio de lesões ou assédio.

Em conversa com a reportagem do Portal Atibaia News, Crystal explicou que o objetivo principal da escola é construir uma rede de apoio e autoconfiança.

No local, a rotina das aulas prioriza a técnica, o respeito aos limites individuais e a escolha atenta de parceiras de treino. O modelo permite ainda a integração familiar: mães e filhos conseguem treinar no mesmo espaço ou horário, dividindo vitórias e incentivando a prática saudável desde a infância.

Confira a entrevista exclusiva com a atleta Crystal Vencovsky:

Portal Atibaia News: O jiu-jitsu ainda é um ambiente majoritariamente masculino. Qual foi o estalo ou a experiência pessoal que te fez perceber a urgência de criar um espaço exclusivo para mulheres e crianças?

Crystal: Estou no jiu-jitsu há muitos anos e, ao longo dessa trajetória, senti que nós, mulheres, precisávamos nos provar o tempo todo para conquistar nosso espaço. Em um esporte de muito contato físico e majoritariamente masculino, as diferenças de força também influenciam a experiência de treino. Muitas vezes, senti falta de um olhar voltado às nossas necessidades.

Sempre tive vontade de abrir minha própria escola. O estalo não veio de um episódio isolado, mas da soma dessas experiências e da preocupação com os relatos de assédio dentro dos tatames. Isso mudou o meu projeto: passei a querer um espaço em que mulheres e crianças fossem a prioridade, desde os horários das aulas até a maneira de ensinar.

Meu objetivo é transmitir o conhecimento que adquiri e oferecer um ambiente de respeito, acolhimento e desafio. Quero que elas possam aprender sem sentir que precisam provar que merecem estar ali. E que as crianças cresçam descobrindo suas capacidades, desenvolvendo confiança e aprendendo a respeitar seus próprios limites e os dos outros.

A escola nasceu dessa vontade: ajudar mulheres e crianças a perceberem a força que têm e o quanto são capazes de superar desafios, dentro e fora do tatame.

Muitas mulheres têm receio de iniciar em um esporte de contato por medo de machucados ou de exposição física. Quais dicas você pode compartilhar, com base em sua experiência como atleta da modalidade, para incentivar essas mulheres?

Minha primeira dica é começar respeitando o próprio ritmo. Você não precisa chegar forte, preparada ou sabendo lutar, pois é nas aulas que vai desenvolver essas habilidades. Procure uma escola em que se sinta à vontade, possa conversar sobre seus receios e tenha seus limites respeitados. Cada pessoa tem suas limitações e objetivos e na nossa escola ensinamos aos alunos a respeitarem o limite do próximo e o objetivo de cada um ali dentro.

Na minha experiência, um bom treino começa pelo cuidado com você e com a seu parceiro. É importante ajustar a intensidade à experiência e às condições de cada uma, priorizando a técnica e evitando movimentos feitos à força. Aprender a reconhecer os próprios limites, sinalizar desconforto e interromper uma posição quando necessário também faz parte do aprendizado.

Essa preocupação também orientou a criação da minha escola, de oferecer um ambiente em que mulheres se sintam acolhidas, inclusive em relação ao contato físico, e tenham parceiras de treino escolhidas com atenção ao porte, à experiência e à intensidade.

Você acha que algumas mulheres podem ter receio de praticar jiu jitsu também por imaginar possíveis situações de assédio em classes de treino mistas?

Sim, acredito que esse receio pode ser uma barreira para muitas mulheres. O jiu-jitsu envolve contato físico próximo, e nem todas se sentem confortáveis em treinar com homens. Essa preferência precisa ser respeitada.

Existem muitos homens respeitosos, que cuidam dos parceiros de treino independentemente do gênero. Ainda assim, os relatos de assédio nas artes marciais geram uma preocupação compreensível e podem afastar mulheres que gostariam de praticar.

Isso também motivou a criação da minha escola, oferecer às mulheres a possibilidade de aprender e desenvolver sua confiança e aprenderem a se defender em um espaço pensado para elas. Mais do que definir quem participa das aulas, é essencial ter uma cultura de respeito, limites claros e abertura para ouvir e agir diante de qualquer desconforto.

Na prática, o que muda na dinâmica do treino, no respeito ao corpo e na sensação de segurança e acolhimento quando o tatame é composto apenas por mulheres?

Tudo muda. Mas na minha experiência, a principal diferença está na confiança e na liberdade que sentimos no tatame. Mesmo em uma escola mista onde existe respeito, algumas mulheres ficam mais retraídas com o contato físico, têm vergonha de perguntar ou receio de dizer que determinado movimento ou intensidade as incomoda. Não há a mesma liberdade de expressão.

Em um espaço só de mulheres, percebo que essas barreiras diminuem. Elas se sentem mais à vontade para falar sobre o próprio corpo, expor dificuldades, pedir para ajustar o treino e aprender sem a pressão de se provar o tempo todo.

Essa liberdade também aparece nas conversas e nos vínculos que construímos. Na nossa escola, podemos compartilhar questões pessoais, encontrar compreensão e criar uma rede de apoio. O treino passa a ser também um momento de pertencimento.

Isso não significa que uma escola mista não possa acolher bem. Mas ter um espaço pensado para nós faz diferença, nossas necessidades orientam o ensino e a dinâmica das aulas. Quando nos sentimos à vontade para perguntar, errar e tentar de novo, treinamos com mais confiança e temos mais liberdade para desenvolver nosso jiu-jitsu.

Como funciona a sinergia de atender mulheres e crianças no mesmo espaço? Você percebe mães que começaram a treinar inspiradas pelos filhos, ou vice-versa? Existem pais e maridos que passam apoiar mais suas esposas e filhos quando descobrem a segurança desse espaço?

Sem dúvida. Temos várias mães que treinam nas turmas femininas enquanto os filhos participam das aulas kids. Em alguns horários, o jiu-jitsu infantil acontece ao mesmo tempo que o funcional ou o muay thai para mulheres. Assim, mãe e filho chegam juntos, cada um faz sua aula e os dois saem juntos. Isso facilita a rotina e transforma o treino em um momento compartilhado pela família.

Também temos mães e filhos que praticam jiu-jitsu em horários diferentes. Mesmo assim, existe uma troca muito bonita, conversam sobre as técnicas, compartilham dificuldades e comemoram as conquistas uns dos outros. A luta passa a ser mais um elo entre eles.

Percebo também pais e maridos mais tranquilos em apoiar a participação da família quando conhecem nossa proposta e o cuidado com as aulas. Esse apoio é positivo, e o mais importante é que a própria mulher se sinta segura, à vontade e motivada a ter esse momento para ela.

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