NOTÍCIAS
Festival abre inscrições para compositoras de Atibaia e região
“Sarau da Jandyra”, em Atibaia, deu origem ao “Festijanda” que tem como objetivo prestigiar o talento de mulheres compositoras da região.
Por Armando Teixeira Junior, com informações da Assessoria de Comunicação Festijanda
O que o cenário musical pop, sertanejo, mpb, rock, rap e de tantos outros ritmos têm em comum? A resposta seria a predominância de compositores homens e pouco espaço para mulheres mostrarem seu talento. O “Festijanda” tenta mudar essa realidade ao propor um festival exclusivo para compositoras mulheres.
Isadora Títto, idealizadora e produtora do Sarau da Jandyra e do FESTIJANDA, em apresentação da 1a. edição do sarau em 2017 (Foto: Zaniqueli Fotografia)
As inscrições estão abertas desde a quinta-feira, dia 11 de fevereiro, para compositoras de todas as idades das cidades de Atibaia, Bom Jesus dos Perdões, Piracaia, Joanópolis, Igaratá, Nazaré Paulista, Bragança Paulista, Franco da Rocha, Mairiporã (Terra Preta) e Francisco Morato. O projeto foi contemplado no Programa de Ação Cultural (ProAC Expresso LAB 40) – Lei Aldir Blanc - Governo do Estado de SP – Governo Federal.
Segundo a organização do evento, cada compositora poderá inscrever até duas canções inéditas, escritas sozinhas ou em parceria (a parceria deve ser também com outra mulher). No ato da inscrição as compositoras deverão apresentar um vídeo para cada canção. Serão selecionadas 24 canções, cujas compositoras receberão um prêmio estímulo. Dessas 24 canções, 12 serão escolhidas e premiadas pelo Júri Técnico e uma premiada por voto popular. Todas as premiações serão em dinheiro, além de outras ações artístico-formativas.
As 24 compositoras que tiverem suas canções selecionadas participarão de três encontros online com as renomadas compositoras brasileiras Cátia de França, Socorro Lira e Lucina, que trarão reflexões sobre os trabalhos e os caminhos trilhados em suas trajetórias profissionais. As inscrições são gratuitas e serão realizadas exclusivamente no site do FESTIJANDA, (www.festijanda.saraudajandyra.com.br) até o dia 25 de fevereiro.
Tiane Tessaroto e Cassia Maria em apresentação na 7a. Edição do Sarau da Jandyra (Foto: Tamara Gigliotti)
O resultado das canções escolhidas será divulgado no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. O encontro com as compositoras será nos dias 12, 13 e 14 de março, e as apresentações das 24 selecionadas acontecerão nos dias 13 e 14 de março. Todos os eventos serão online. As gravações das músicas acontecem nos dias 20 e 21 de março. A exibição do show final online será nos dias 27 e 28 de março.
Festival surgiu em Atibaia…
O movimento que gerou o FESTIJANDA – I Ciclo de Compositoras, nasceu das ações realizadas pelo Sarau da Jandyra, em Atibaia. Foram 14 edições do sarau, em espaços culturais independentes e escolas públicas, com mais de uma centena de mulheres, de todas as faixas etárias e diversas etnias.
O sarau teve início em 2017, co-produziu e integrou a programação de um festival internacional de teatro, recebendo artistas do Chile e Uruguai. Em 2018, intensificou sua atuação pela representatividade e as diversas “mulheridades”, promovendo ações de políticas públicas pelos direitos da mulher e pelo patrimônio histórico da cidade: cortejos e rodas musicais que culminam na reabertura da Casa da Cultura Jandyra Massoni, fechada há mais de uma década, e na participação ativa pela preservação do Casarão Julia Ferraz. Desde o início da pandemia, o Sarau da Jandyra vem realizando ações online, o que possibilitou a participação de muitas “Jandyras” de outros estados e países (de Sul à Norte, do Chile à Portugal), e realizou a primeira temporada da Refulfeca - diálogo entre duas Jandyras, que conversam sobre a vida e a arte.
Uma “Femenagem” ao talento das compositoras muitas vezes anônimas.
Em uma breve entrevista, Isadora Titto, organizadora e idealizadora do “Festijanda”, falou ao Portal Atibaia News sobre a luta das mulheres pela igualdade no meio artístico.
Explicou a origem do nome do “Sarau das Jandyras”, intimamente ligado a uma mulher de importância história para o município de Atibaia, e falou sobre o alcance das redes sociais na internet, a militância e as fake news que muitas se apresentam como um desafio para os movimentos que lutam por espaço e reconhecimento. Como presente, aprendemos ainda o termo “femenagem” que é utilizado para demonstrar o reconhecimento a um ato ou trabalho desenvolvido por uma mulher.
“Vozes Bugras” na gravação do show de abertura do FESTIJANDA (Foto: Marcela Alvim )
Portal Atibaia News: Como surgiu a ideia de realizar um festival exclusivo para mulheres?
Isadora Titto: Eu acredito que a ideia surgiu da necessidade. De perceber que o trabalho não é valorizado, como o trabalho de um compositor, surgiu no dia a dia, nas adversidades que aparecem, muito na tentativa de reverter esse quadro, de entender que tantas outras mulheres já passaram por situações parecidas, e tiveram que, no seu tempo, tomar atitudes como dar o crédito a um homem para que a música pudesse ser registrada, ouvida e tocada, ou simplesmente a canção acaba levando o pseudônimo, não de um compositor existente, mas de um "homem" para que ela pudesse ser creditada.
Então, ouvindo entrevistas, conversas, a gente percebe a necessidade de que o festival seja apenas para as mulheres. E ele nasce já com a intenção de que um dia (essa restrição) não precise mais existir, ele possa simplesmente ser um festival de música.
Percebemos que no universo da música em geral ainda existe certa predominância de compositores homens. Ações como essa buscam também aumentar a visibilidade de compositoras que muitas vezes não conseguem expor seus trabalhos?
Esse é o principal foco do Festijanda, é fazer com que no mural da nossa música popular brasileira possam aparecer outras faces, e faces de mulheres que muitas vezes não podem ocupar esse espaço. É permitido que as mulheres possam ser professoras, é permitido que as mulheres possam ser cantoras, mas o lugar das instrumentistas, das compositoras, ainda não está devidamente ocupado, mas não porque não existam mulheres nesses lugares, mas sim porque esse lugar não é creditado, ou seja, não se dá o valor necessário para essas ações. É importante lembrar que a Jandyra Massoni, que é a matriarca, que a gente presta homenagem, a "femenagem", consta em um trabalho, um doutorado, que ela também foi compositora, porém nós desconhecemos essa obra, esses trabalhos, não sabemos quantas canções eram, muito porque provavelmente ela guardou tudo em um baú por não se sentir à vontade para mostrar seu trabalho.
Estandarte do Sarau da Jandyra feito pela artista Rita Moura (Foto: Isabela Gonçalves)
Por que "Jandyras"? Qual a razão da escolha desse nome?
Quase já respondi essa pergunta, chama-se "Jandyras" porque nasceu do “Sarau da Jandyra”, que é uma "femenagem" a Jandyra Massoni, que foi uma musicista da cidade de Atibaia, maestrina, mestra capela, que trabalhou ativamente para que pessoas pudessem aprender canto, piano, pudessem cantar nos corais e para isso ela ia inclusive buscar pessoas que moravam distante do centro, e não havia transporte público. Além de tudo realizava saraus na garagem da casa dela, que era quase uma casa de cultura porque ocorriam ensaios de corais, aulas eram ministradas, ensaios de grupos de teatros.
Em 2017, resolvemos retomar e falar sobre ela porque há mais de uma década a casa de cultura que levava o nome dela estava fechada. Não se falava mais sobre a Jandyra na cidade. Então, é preciso retomar essa memória e mostrar para as pessoas que chegam hoje, pessoas que trabalham com música, quem foram as pessoas que trabalharam antes e que levantaram esse estandarte.
Hoje pautas como racismo e feminismo ganham uma nova dimensão com as redes sociais, ao mesmo tempo as fake-news e a desinformação também se tornaram um grande obstáculo para a divulgação de algumas causas. Qual sua opinião sobre essa questão.
Bom, se a gente olhar o tempo, a história é cíclica. Porém, se a gente olhar um passado recente, por exemplo da ditadura, da censura, e olhar o que a gente tem hoje, uma grande diferença, além de não ter um alvo fixo, o lado positivo disso é que o crescimento dessas bandeiras identitárias é notório, isso é positivo por si só. Ao mesmo tempo existe esse lugar das fake-news que não é só para essas questões, é para tantas outras, então eu só consigo olhar para o aumento dessas lutas pelo lado positivo, porque eu sinto que a partir do momento em que se possa falar, a gente pode compreender e equalizar qual o volume dessa fala, como a gente aprende a falar ouvindo, como uma criança, o professor ...a partir do momento em que as bandeiras identitárias todas elas podendo falar e podendo ouvir, o que reverbera dessas vozes, com certeza a gente tem um resultado que a longo prazo é só benéfico, mas há que se ter paciência com a caminhada, a jornada, e todo esse processo tem que responder a uma única questão: legitimidade.
Muito se fala da "militância" que muitas vezes extrapola os limites ao tentar forçar um debate sobre temas urgentes mas de forma equivocada. Vemos isso inclusive em reality shows populares na televisão. Tanta discussão ajuda ou atrapalha na divulgação de movimentos como o Festijanda?
A discussão e o debate a meu ver são sempre benéficos, mas eles precisam partir do lugar da legitimidade. Na questão de um reality show, por exemplo, você não parte da legitimidade, parte do interesse midiático da indústria que se relaciona, que não têm vínculos com o real desejo desse debate, ou dessa militância. Quando você percebe os contextos em que as coisas acontecem, automaticamente, um campo se abre de compreensão ou de curiosidade, enfim, mas principalmente um campo de escuta, buscar e entender a necessidade de um festival que acontece em um recorte regional só para mulheres, já é de grande importância e valia, tanto para a cidade quanto para essas compositoras e, principalmente para o que esta por vir. Porque falta esse espaço em que a mulher possa mostrar seu trabalho, exercer seu trabalho, e dentro da música isso não é diferente.
Você pode explicar melhor essa escolha pela música como tema principal do “Festijanda”?
Então, nosso recorte e a opção pela música veio da matriarca que sempre trabalhou com a música, mas também porque a música é uma importante ferramenta da sensibilidade, para trabalhar a sensibilidade, para contar uma história.
A Joyce Moreno tem uma frase ótima que a MPB tem resposta para tudo, então a gente ouve falar de alguma situação, o 180(Número da Central de Atendimento a Mulher) foi divulgado muito mais depois que a Elza Soares cantou determinada canção, a gente conhece a Rua Nascimento Silva, 107, mesmo sem ter ido para o Rio porque ela foi colocada em uma canção.
Se viaja para BH, por exemplo, vai querer conhecer o clube da esquina, mesmo que seja apenas uma esquina como outra qualquer, mas você resignifica, a música tem esse poder. Então, o debate sobre a legitimidade passa por todas essas questões, e a gente faz essas escolhas de forma consciente, a partir do que se tem de mais caro que é a escuta. A música vai trabalhar a escuta. Então, independente do que está acontecendo em outras esferas, o que a gente invoca, a palavra certa, é escuta. E através dessa escuta é que a gente consegue caminhar. Acreditamos nisso.