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Professores e pais de alunos de Atibaia vivem dilema nas primeiras semanas de aulas presenciais durante a pandemia
Dificuldade de aprendizado, medo da Covid-19, baixa frequência dos estudantes... Os desafios do retorno as aulas presenciais na visão de professores e pais de alunos.
Por Armando Teixeira Junior
A pandemia de Covid-19 modificou a rotina de professores e alunos que vivem uma série de dificuldades e incertezas há mais de um ano.
Sem prever uma nova curva acentuada de crescimento de novos casos de Covid-19 no país, escolas voltaram às aulas presenciais no início do ano para logo em seguida fecharem novamente as portas de seus espaços físicos.
O período de aulas presenciais, que durou pouco, foi marcado pela baixa adesão dos alunos e muita insegurança entre professores e profissionais da área da educação.
Em Atibaia, o Prefeito Emil Ono informou na noite da última sexta-feira, dia 12, através de seu Facebook, que após se reunir com representantes de diversos setores e com a ACIA (Associação Comercial e Industrial de Atibaia), o Poder Executivo decidiu pela reabertura das escolas municipais. (veja o vídeo no link)
O Portal Atibaia News entrevistou professores e pais de alunos que revelaram um pouco sobre o dia-a-dia do retorno às aulas.
Os entrevistados aceitaram responder as questões, mas pediram para que os nomes e locais de trabalho não fossem publicados temendo algum tipo de represália, portanto serão utilizados pseudônimos para preservar a identidade dos entrevistados.
“Professores ficaram com medo de perder o emprego...”
Entrevistamos professores e profissionais da educação que foram unânimes em afirmar que tinham medo de serem contaminados pela Covid-19 em ambiente escolar. A maioria afirmou também que aceitou o retorno às aulas presenciais com receio de colocar a carreira em risco.
“Nós da rede(municipal) não podemos comentar casos de Covid. Pediram para não postar nada sobre esse assunto no Facebook”, afirmou Maria* que trabalha como assistente em uma escola de Atibaia.
A professora Antônia* que atua no Ensino fundamental em uma escola do município também confirmou para o Portal Atibaia News que: “Professores receberam orientações para não expressar suas opiniões pessoais sobre o assunto na internet e nas redes sociais. Todos se sentiram com medo de represálias”.
Em escolas estaduais a opinião sobre o assunto foi diferente. Apesar do medo da doença, a professora de História Bete* afirmou que os alunos maiores conseguiram de certa forma cumprir os protocolos de segurança.
“Por ser uma escola que atende alunos do Fundamental II e Ensino Médio os alunos já possuem uma certa independência e responsabilidade, todas usavam e trocavam suas máscaras e respeitavam o distanciamento social sem problema algum observado.” Afirmou.
Organização, mas com baixa frequência de alunos
Professores e profissionais da Educação afirmaram que houve um planejamento seguindo protocolos que foram estabelecidos pela Secretaria da Saúde e da Educação.
Tanto nas escolas estaduais quanto municipais, os profissionais consultados afirmaram que foram obedecidos os critérios de organização com no máximo 25% dos alunos matriculados em sala de aula, o que gerou um calendário que fazia com que cada aluno fosse para a escola poucas vezes ao mês.
“Em fevereiro minha filha de 4 anos iria para a escola apenas 2 dias. Em março, 4 dias se fosse seguido o planejamento escolar. Optamos por não enviar para a escola com medo da Covid-19, mas também ficamos pensando que 4 dias por mês não faria diferença alguma” Afirma José*, pai de uma aluna matriculada em escola municipal.
A Professora Bete disse que: “Mesmo sendo feito a escolha dos pais para as aulas presenciais na semana de rodizio, as salas de 8 alunos, sempre registravam a presença de 2 à 5 alunos, sendo que no Ensino Médio a presença foi bem menor entre 01 e 3 alunos”.
Em creches e no Ensino Fundamental I, professores consultados disseram que havia em média 4 alunos por grupo, ou cerca de 60% do esperado.
“Crianças pequenas sofrem com a falta de rotina, jovens não acessam os conteúdos”
Durante a entrevista um dos pontos principais abordados pelos educadores que trabalham em creches com crianças pequenas foi a falta de rotina e como isso atrapalha a criança e seu desenvolvimento.
“Para a creche, sempre será uma nova adaptação porque as crianças precisam de um período maior para se adaptarem à rotina escolar, quando começam a se adaptar, a semana termina e perdem a rotina… tornando o novo período doloroso, pois irão nos ver só depois de 3 semanas.” Conta a assistente Maria.
Outro problema é o fato de crianças menores não conseguirem manter o distanciamento social e até se assustarem ao ver os professores e amiguinhos o tempo todo de máscara. Maria segue nos contando que mesmo higienizando as mãozinhas a todo momento com álcool gel e antes das refeições, lavando com água e sabonete líquido e secando com papel toalha, mesmo assim, separadas por espaços marcados, as crianças ainda tentam se tocar mesmo sendo orientadas a ficarem distantes umas das outras.
“Nós, profissionais, tentamos não ficar próximos às crianças, mas como não acolher uma criança quando está chorando? Precisamos dar colo quando estão chorando ou mesmo dar a mão para se sentirem acolhidos no momento de adaptação que estão longes dos pais… depois do momento, passamos álcool gel… não tem como ficarmos o tempo todo de protetor facial, as crianças se assustam”. Afirma.
Quando o assunto são os pré-adolescentes e jovens é possível notar que a falta de rotina causou um impacto negativo ao permitir que os alunos tenham liberdade para acessar ou não os conteúdos. Professores informaram ao Portal Atibaia News que as escolas do Estado de São Paulo estão utilizando o aplicativo “CMSP” (Centro de Mídias do Estado de SP), e segundo eles o uso do aplicativo é com dados patrocinados pelo Estado, o aluno não precisa ter internet em casa para usar e além disso o aluno também ganhou um chip com internet e ligações para usar para se comunicar com o professor.
Mesmo com essas facilidades existe uma “evasão escolar virtual”. A professora Bete faz um relato preocupante sobre o tema, lembrando também que alunos de regiões mais pobres sofrem ainda com a falta de recursos para acompanhar as aulas virtuais.
“Poucos alunos instalaram o aplicativo, poucos alunos assistem as aulas.
As aulas do CMSP ao vivo são no período contrário das aulas presenciais, depois as aulas ficam no Youtube, mas os alunos, mesmo assim não tem interesse em assistir.
As famílias não estimulam, não criam uma rotina de estudos com seus filhos, os jovens trocaram o dia pela noite, dormem o dia todo e muitas vezes só no final da tarde entram nos grupos das salas e querem saber das aulas... das atividades, sendo que no período noturno os professores não trabalham e acabam muitas vezes não atendendo essas dúvidas.
Houve uma enorme evasão! Muitos jovens, do Ensino Médio principalmente, aproveitaram para trabalhar, já que não está tendo aulas presenciais e deixaram o estudo em segundo plano. Muitos alunos não possuem celular para instalar o aplicativo, bem como nem possuem TV em casa, sim há pessoas que não possuem TV em casa em 2021”, Relata.
Casos de Covid nas escolas
Esse é talvez o tema mais delicado a ser abordado. Nas entrevistas tivemos relatos de casos que aconteceram em diversas escolas de Atibaia. Para preservar o sigilo médico e não expor pessoas citadas, optamos por não publicar nomes de escolas citadas.
“Há vários casos de Covid na rede(municipal), uma diretora de uma das maiores escolas municipais de Atibaia estava com Covid na primeira semana de trabalho, a intérprete de libras da mesma escola também teve. Em outra escola do Centro de Atibaia, uma professora e uma monitora tiveram Covid-19 no período das aulas presenciais”. Afirmou uma professora.
Houve relatos ainda de outros casos, onde professores participaram de reuniões, estiveram em encontros de planejamento e logo em seguida descobriram a Covid-19, causando pânico nos colegas.
Outro relato afirma que professores e profissionais que “dobram” o turno, ou seja, trabalham horas extras, temem perder o benefício financeiro.
“Têm profissionais com possíveis parentes com Covid que não se manifestam, pois poderiam pegar o atestado de 10 dias de afastamento, porém o professor não pega porque precisa dobrar e se pedir o atestado, não dobra... colocando a equipe e alunos em risco.” Disse uma funcionária municipal.
Professores são submetidos a aferição de temperatura todos os dias além de
responder um questionário todas as semanas, sobre sintoma gripais, temperatura e se familiares ou parentes apresentaram sintomas de Covid-19. Muitos profissionais da educação consultados afirmaram que não acreditam na eficiência completa desse método.
Aulas presenciais são mais eficazes? Alunos estão com Déficit de aprendizado?
Professores foram unânimes em dizer que as aulas presenciais são mais eficazes e que crianças e adolescentes aprendem mais com professores nas salas de aula.
A assistente Maria disse que as aulas presenciais ajudam as crianças menores e também os pais.
“Eu acredito que as aulas presenciais melhoram a condição de vida para as crianças: os pais se encontram estressados pelo fato de crianças estarem há muito tempo dentro de casa e também não saberem conviver com os próprios filhos. Indo para a escola, a criança pode brincar com outras crianças e tem uma rotina planejada, melhorando sim o aprendizado.”
A professora Bete, também afirma que no Ensino Médio a interação professor/aluno ajuda em especial os estudantes com problemas de aprendizagem.
“Os alunos que compareceram e tinham alguma dificuldade de aprendizagem com certeza tiveram uma ajuda maior pois a dedicação individualizada do aluno e professor foi bem maior e significativa, porém aqueles que não tem nenhuma dificuldade de aprendizagem ao meu ver foram deixadas de lado.”
Alguns pais consultados que não enviaram seus filhos para as aulas presenciais, disseram que temem que as crianças sofram com déficit de aprendizado.
Quando perguntamos a uma professora de escola estadual de Atibaia se ela acredita que os alunos terão déficit de aprendizado ela afirmou:
“Sim com certeza, mas não porque a escola deixou de ofertar o ensino, mas porque grande parte das famílias principalmente da periferia jogam toda a responsabilidade do estudo pra escola, não apoiam seus filhos nos estudos”.
Pais e mães consultados relataram que existem dificuldades em acompanhar os filhos nos estudos e que a rotina da casa teve que ser reorganizada.
Uma funcionária municipal opinou sobre o assunto:
“Algo que eu sinto que falta é o contato professor/família: a família acredita que o ensino é obrigação da escola e por falta de interesse e tempo (muitas famílias estão trabalhando e não tem tempo para fazer as atividades com as crianças), há baixo aproveitamento das atividades. Acredito que se os professores motivassem as famílias a estarem fazendo as atividades com seus filhos, teriam um melhor aproveitamento. ”
“Não mandem seus filhos para a escola agora, nem todos estão se cuidando”
A frase acima foi dita por uma funcionária de escola municipal que relatou ao Portal Atibaia News que presenciou o caso de uma merendeira que teve Covid-19.
Vários pais e profissionais da educação consultados disseram já ter presenciado situações de uso irregular da máscara protetora em ambiente escolar, quando a mesma não está cobrindo nariz e boca integralmente.
Posicionamento do Portal Atibaia News
Esta matéria foi realizada após recebermos diversos comentários sobre o assunto.
As entrevistas não refletem uma pesquisa quantitativa. Fizemos contato com um número restrito de professores, assistentes e funcionários da rede municipal e estadual, sendo que nem todos aceitaram responder nosso questionário, alguns responderam apenas algumas perguntas e outros aceitaram falar sobre os temas mais complexos e possivelmente polêmicos.
Ressaltamos mais uma vez que a pedido dos entrevistados utilizamos pseudônimos quando necessário e preservamos a identidade dos consultados
A matéria não reflete a opinião do Portal Atibaia News sobre as questões abordadas, apenas apresenta as opiniões de pessoas que vivenciaram o retorno as aulas presenciais.