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Atibaia é referência nacional no Beisebol e Softbol
Com o apoio da colônia nipo-brasileira modalidade ganhou um Centro de Treinamento no município para crianças e jovens (fotos: divulgação beisebol e softbol Atibaia)

Armando Teixeira Junior
O esporte mais popular no Japão e um dos mais populares dos Estados Unidos é o beisebol. Com bolinhas, bastão e luvas a modalidade vem ganhando cada vez mais público também no Brasil e a cidade de Atibaia pode ser considerada uma das referências do cenário nacional na formação e preparação de atletas.
As regras podem parecer um pouco complicadas no início, assim como o campo em formato de diamante e o famoso “montinho” onde os arremessadores se revezam para os lançamentos. A modalidade feminina, o softbol, também possui suas características próprias.
Por isso para formar um atleta, em um país onde esse esporte ainda é amador e pouco conhecido, é necessária uma longa preparação.
Um dos grandes trunfos da cidade de Atibaia é a forte presença da colônia nipo-brasileira que sempre deu suporte para a prática do beisebol e do softbol no município, auxiliando inclusive com a estrutura necessária para os treinamentos.
Atibaia inaugurou recentemente o primeiro Centro de Formação Esportiva de Beisebol e Softbol do Estado de São Paulo e as atividades são realizadas nos campos das modalidades da Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira de Atibaia (Acenbra), o Parque Nipo.
Para falar mais detalhadamente sobre o trabalho que é desenvolvido com os atletas, sobre a importância da colônia nipo-brasileira e sobre a divulgação da modalidade no país, o Portal Atibaia News entrevistou um dos responsáveis pelo trabalho realizado com mais de 100 atletas, entre jovens e crianças, o Coordenador Técnico Fernando César Gouvea.
Portal Atibaia News: Como está organizada a modalidade em Atibaia? É possível dizer que Atibaia se destaca no cenário nacional de beisebol e softbol?
A organização das modalidades em Atibaia, tanto o beisebol como o softbol, estão concentradas no Campo Parque Nipo.

Temos vários campos para que as diversas categorias possam treinar separadamente, crianças desde 6, 7 anos, até o juvenil com 18 anos. As categorias maiores, acima do juvenil treinam no campo do Tsuji, no bairro da Represa, próximo a Bom Jesus dos Perdões.
Temos toda uma estrutura de comissão técnica, com treinadores e auxiliares em todas categorias, também com a ajuda das famílias que é um grande destaque nas modalidades.
Com certeza Atibaia é um dos destaques nacionais, não só pelo que tem feito atualmente, mas por toda sua história. Durante todos esses anos, Atibaia teve atletas de destaque, saindo do Brasil, e indo jogar no Japão principalmente; no início, esse era o caminho mais comum pelo fato do esporte estar muito ligado a colônia japonesa. Hoje não é diferente, isso continua, Atibaia se destaca em todas as modalidades.
No ano passado, nossa pior colocação foi um terceiro lugar, realmente nosso município permanece como um destaque no cenário nacional do beisebol. No softbol também, com renovação e novas atletas, tem desenvolvido um trabalho muito bom mantendo a cidade em evidência no cenário nacional.
Quantos jovens participam dos treinamentos atualmente? Quais os profissionais envolvidos no projeto?
Em relação a participação nós temos atualmente 106 crianças e jovens participando das modalidades em suas diversas categorias. São divididos por idades, a cada 2 anos é uma categoria.

No beisebol a estrutura é ter entre três e quatro profissionais atuando na orientação de cada grupo, com um treinador principal mais três auxiliares técnicos. Então em 7 categorias nós temos em torno de 25 pessoas trabalhando com esses meninos. No softbol, temos um número um pouco menor de meninas, mas com uma estrutura semelhante.
Uma coisa importante a se dizer é que nós temos alguns pais que nos ajudam, eles acompanham os filhos nos finais de semana e auxiliam nos treinamentos, temos inclusive dois pais de alunos que coordenam a categoria, no sentido de fazer as fichas, receber os documentos, ajudar o treinador a agendar amistosos, organizar as viagens para os torneios, etc. Nós temos um envolvimento muito grande dos pais, uma coisa muito ímpar. Quando o evento acontece em nosso campo, muitas mães trabalham na cozinha preparando a alimentação dos atletas por exemplo, algo que eu nunca vi em outras modalidades, o envolvimento das famílias.
Atibaia inaugurou recentemente um novo Centro de Formação Esportiva para Basebol e Softbol. Qual a importância dessa conquista e quais os resultados esperados?
Nós inauguramos há pouco tempo, mas desde o início do ano a gente desenvolveu esse projeto de um Centro de formação específica para o beisebol e softbol, e a ideia principal é aprimorar o trabalho com as crianças que já temos, dar mais oportunidades de treinos durante a semana, nesse processo de desenvolvimento na modalidade, e também ensinar novas crianças.

Nosso objetivo também com esse Centro de formação é trazer novas crianças e jovens do município para que possam conhecer a modalidade e aprenderem de maneira adequada com os treinadores.
O objetivo não é “ser campeão”, a gente não se preocupa com isso, na verdade o foco é trazer novos atletas, com suas famílias, para ter um desenvolvimento em um processo mais completo além do esporte.
Infelizmente ninguém consegue fazer com que todas as crianças se tornem grandes atletas, isso em nenhuma modalidade esportiva, é muito difícil formar um atleta de alto rendimento em qualquer modalidade que seja, e esse processo é trabalhosos, por isso no Centro de Formação nosso objetivo é que essas crianças se desenvolvam para a vida, porque o mais importante é estar na escola, estudando, fazer parte de um processo educacional do qual a família faz parte. A gente não quer só um atleta, um grande talento, nós queremos trazer a família para o esporte.
No Brasil qual a importância da colônia nipo-brasileira na prática do beisebol?
Na verdade, o beisebol se desenvolveu por conta da colônia nipo-brasileira no Brasil. Não só em Atibaia, mas em todo o país, pois temos colônias nipo-brasileiras espalhadas por todos os centros do Brasil, e temos contato de vários estados que possuem um projeto de beisebol e que foi iniciado pela colônia nipo.

Esse processo veio até o início dos anos 90, com sua maioria ou até com sua totalidade de atletas descendentes da colônia que praticavam o esporte no Brasil, e aí começou a acontecer uma diminuição do número de atletas. Foi aí que aconteceu então um processo de abertura, para aqueles que não eram descendentes, e aí a colônia japonesa passou a aceitar atletas que não tinham descendência nipo, e isso fez com que o esporte desse um outro salto de qualidade, porque acabou chamando a atenção de mais crianças, que acabaram se desenvolvendo e se destacando.
Hoje nós temos vários brasileiros que acabaram se destacando, que jogaram nos Estados Unidos e estão jogando em outros países, como México, Itália, Alemanha, França... além de países da Ásia como a Coréia e o Japão. Então tudo isso aconteceu com uma maior abertura da colônia japonesa para que brasileiros entrassem na modalidade, tanto que hoje nós temos, ao menos em Atibaia, um número equiparado, entre brasileiros e descendentes de japoneses que praticam o esporte. Mas tudo isso não tira o mérito e a importância da colônia japonesa no início desse processo.
O que o esporte precisa na sua opinião para se tornar mais popular e atingir mais pessoas no Brasil?
O beisebol é conhecido, o softbol é conhecido! Até porque a mídia tem mostrado mais.

Nos Estados Unidos campeonatos universitários, estaduais, colegiais, tem destaque na mídia e a transmissão desses jogos também no Brasil faz com que cada vez mais crianças procurem o esporte porque viram na televisão. Então o papel da mídia é fundamental no processo de divulgação. Por outro lado, nosso país, por conta de sua imensidão territorial, acaba gerando algumas dificuldades nesse processo de popularização do esporte. Quem está em Goiás por exemplo, pode ser até na capital Goiânia, que assistiu na televisão e quer jogar beisebol não tem essa oportunidade ainda, porque Goiânia não tem o beisebol estruturado e desenvolvido por lá.
Nossa equipe recebe mensagens de todos os lugares perguntando como fazer para participar, mas não é possível, pois não temos estrutura para receber ainda pessoas de fora.
Na verdade, nosso país é um pouco “mono cultural” no esporte, tendo o futebol como maior destaque, por isso esse trabalho de divulgação da modalidade é essencial. No nosso caso trabalhar com a mídia local, montar projetos, pra que isso se torne mais regional, para depois atingir ainda um nível nacional.
É claro que não é fácil e é necessário que a Confederação Brasileira trabalhe nesse processo e exerça seu papel no desenvolvimento da modalidade.
O processo está sendo muito bem feito em Atibaia. Nós temos o clube, temos o centro de treinamento, e nós queremos em um processo muito rápido iniciar um trabalho dentro da área da educação, das escolas. Logo mais poderemos até dar mais detalhes sobre isso.
A organização da modalidade no Brasil como centros de treinamento, campeonatos e torneios depende da colônia japonesa? Como é estruturada a modalidade no Brasil?
Sobre a estrutura, na verdade existe um órgão que rege as duas modalidades, é a Confederação Brasileira, que tem duas diretorias, uma para o beisebol e outra para o softbol. Elas caminham juntas, mas são independentes, por conta das características de cada modalidade.
O beisebol tem um centro de treinamento que fica em Ibiúna aqui em São Paulo, que foi criado em 1999. A gente tem de 40 a 45 atletas que residem lá, e esse número vai variando dependendo do ano. O objetivo maior é formar atletas para jogarem fora do País. Então, é um centro de treinamento de alta performance, todo ano tem uma seletiva para quem tem condição de entrar lá, têm critérios, os treinadores, a equipe técnica, fazem todo esse processo e o objetivo maior é que se tornem atletas profissionais.
É claro que isso não acontece cem por cento, mas temos grandes experiências de muitos atletas podendo seguir carreira como profissional. Hoje, em Atibaia temos dezesseis atletas residindo no centro de treinamento, é um número muito grande em vista até do nosso trabalho no clube, porque se não for o trabalho do clube o atleta não consegue se desenvolver e chegar no nível adequado para entrar no centro de treinamento. No softbol a gente não tem um centro de treinamento, mas também tem toda uma estrutura, dos treinadores de todas as categorias e das seleções.
Existe uma seleção brasileira da modalidade?
Falando em Seleção Brasileira existe sim, a gente tem seleção brasileira desde os 10 anos de idade, por categoria, e participamos dos torneios internacionais pelo mundo. Então, o que acontece, por exemplo, se estabelece o calendário para 2022, com datas para as categorias, campeonato infantil, pré-júnior, júnior, juvenil, sub-23 e adultos, e os campeonatos vão desde o sul-americano, campeonato panamericano até campeonato mundial.

Esse processo acontece da seguinte maneira: a confederação convoca os treinadores, a equipe técnica faz uma seletiva e escolhe os melhores jogadores para compor a seleção brasileira daquela categoria para disputar aquele torneio. Isso tudo é feito lá em Ibiúna por conta da estrutura.
Frequentemente alcançamos bons resultados, o que é importante apesar de sermos um esporte amador no Brasil. Amador porque ninguém no Brasil recebe para jogar. Todos os jogadores que participam jogam porque gostam, não recebem salário. Isso é um processo dificultoso quando você pensa numa seleção juvenil, sub-23 e adultos, porque um rapaz de 17, 18 anos, está pensando na universidade ou já está na universidade, ou já está trabalhando, e os adultos mais ainda.
A demanda para se montar as seleções maiores é um pouco mais dificultosa no processo, mas ainda assim a gente consegue desenvolver tudo isso e fazer com que o Brasil seja bem representado. Aqui no Brasil, temos torneios o ano inteiro, e neste ano estão marcados todos os torneios, são torneios comemorativos, ou de clube ou torneios que prestam homenagem a alguma pessoa importante dentro do Beisebol. Neste ano, o calendário começa em abril e temos campeonatos até dezembro. É um calendário bem extenso e que contribui para um processo no desenvolvimento das crianças.
O povo japonês é muito conhecido por sua organização e disciplina, que são características também do beisebol. Na sua opinião quais outras influências positivas da cultura japonesa esse esporte traz para seus participantes?
Quando a gente fala de povo japonês o que vem na mente das pessoas é organização e disciplina, e no beisebol não é diferente, eles desenvolveram a modalidade dentro desses princípios e isso nos auxilia muito, tanto no beisebol quanto no softbol.

Na questão da educação também, pois é muito importante que todos estudem, estejam na escola, nosso projeto cobra isso porque sem educação a criança ou jovem não consegue evoluir, ainda que a educação no Brasil precise melhorar. Outra coisa é a importância da estrutura familiar. O que é mais interessante, após a abertura para as famílias brasileiras é que os objetivos continuaram os mesmos, a pessoa precisa se adequar, adaptar.
O mais interessante é que a gente sempre ouve os pais falarem: “Eu nunca vi isto em nenhuma modalidade esportiva”. Todo mundo junto, o pai, a mãe, dentro do mesmo processo. O mais positivo foi a evolução das pessoas envolvidas, tanto dos mais velhos quanto dos mais novos, foi de perceber que a abertura para os brasileiros foi muito boa e, também a abertura para profissionais de outras áreas, como o profissional da educação física, da fisioterapia, da medicina esportiva, da ciência .... Eu sou professor de educação física, fui professor universitário, técnico esportivo. Então, isso é usar a ciência dentro da modalidade esportiva. Ou seja, estamos trabalhando em conjunto para o melhor desenvolvimento das modalidades e das pessoas envolvidas.
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