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POSTADO EM 27/06/2021 - 10h53

Morro do Saci pode se tornar Monumento Municipal Natural protegido por lei

Portal Atibaia News entrevistou o biólogo Paul Colas, que junto ao Coletivo Socioambiental e de moradores do local, luta pela preservação da beleza natural, da fauna e flora do Morro do Saci


Morro do Saci a partir da vista do centro (Foto: Paul Colas)

Armando Teixeira Junior

Um dos pontos que chama a atenção de moradores e turistas que visitam a cidade de Atibaia em busca do contato com a natureza é o Morro do Saci. Visto de diversos pontos do município, o aclive acentuado, próximo aos bairros Jd. Maristela e Parque Itaguaçu, quase em forma de pico, é parte da história da cidade e de seus moradores.

Com o crescimento urbano acelerado dos últimos anos, moradores do entorno do Morro do Saci têm se mobilizado para garantir a preservação da área que abriga espécies diversas da fauna e da flora, registrados inclusive em fotos e vídeos.

O Biólogo Paul François Colas é um dos moradores, que junto ao Coletivo Socioambiental, pretende transformar a área em uma reserva de proteção ambiental.

 “Estava se iniciando as discussões da atualização do Plano Diretor de Atibaia e estávamos empenhados em apresentar propostas socioambientais que gerassem qualidade de vida a população aliada a conservação da natureza que é uma característica singular de Atibaia.” Explica o biólogo sobre como surgiu a ideia de tornar a área um Monumento Natural Municipal.


Morro do Saci fotografado em sobrevoo com Pedra Grande ao fundo (Foto: Michel Habib)

O objetivo do grupo é impedir que o crescimento urbano ameace as belezas naturais da região assim como a flora e os animais silvestres que habitam o local.

No momento o principal desafio dos moradores é mudar a legislação municipal que ainda permite que no local sejam construídas residências e comércios em formatos que podem muito em breve mudar as características do Morro do Saci.

“O zoneamento ainda hoje vigente permite a ocupação com residências multifamiliares (os conjuntos vila), mecânicas, supermercado e até posto de combustível, algo incompatível com a região. Não é desejável que o Morro do Saci, Pico do Barreiro ou Itaguá simplesmente suma da paisagem da cidade.” Explica Paul.

Importante ressaltar que a iniciativa defendida pelo Coletivo Socioambiental não geraria desapropriações, nem impediria a população de ter acesso ao local, pois ao se transformar em Monumento Natural Municipal, o Morro do Saci ficaria aberto à visitação turística.


Foto do Morro do Saci e da Serra do Itapetinga da década de 40 (Autor: Wilson Lopes) 

Confira a entrevista completa que o Portal Atibaia News realizou com o biólogo e morador Paul François Cola, sobre o assunto.

Portal Atibaia News: Para aqueles que não conhecem, qual é a região de Atibaia conhecida como Morro do Saci?

O Morro do Saci se localiza na região do Itapetinga, município de Atibaia. Os mais antigos o conhecem como Pico do Barreiro e há relatos de ter sido historicamente conhecido como Itaguá pelos guaranis. Trata-se de uma serra curta de cerca de 4,5km de extensão, um braço da Serra do Itapetinga. Essa serra na sua porção norte termina abruptamente próximo ao bairro do Jd. Maristela e Pq. Itaguaçu, sendo possível avistar de quase toda área central da cidade, um belíssimo afloramento rochoso.

Portal Atibaia News: Qual a importância da região na preservação da fauna e da flora local?

Quando comecei a morar mais perto do Morro do Saci, me interessei em saber sobre os animais silvestres que utilizavam aquele local. Comecei a instalar por conta própria armadilhas fotográficas e fazer observações na mata e me surpreendi com a presença de animais considerados ameaçados de extinção, como o sagui-escuro-da-serra, o gato-mourisco e até a jaguatirica, utilizando o Morro como área de vida. Tudo isso numa área que está a cerca de 500 metros da Av. Lucas Nogueira Garcez, uma das mais movimentadas de Atibaia.


Sagui-escuro-da-serra espécie em perigo de extinção fotografados no Morro do Saci (Autor: Luiz Abdalla)

O empenho individual de conservar as matas que alguns proprietários do Morro do Saci tiveram ao longo das últimas décadas, permitiu que a vegetação voltasse aos poucos e com ela a fauna silvestre e ameaçada.

Como surgiu a ideia de transformar a região em área de proteção ambiental?

A ideia surgiu por iniciativa do Coletivo Socioambiental, do qual também faço parte. Estava se iniciando as discussões da atualização do Plano Diretor de Atibaia e estávamos empenhados em apresentar propostas socioambientais que gerassem qualidade de vida a população aliada a conservação da natureza que é uma característica singular de Atibaia.

O Morro do Saci é um acidente geográfico que compõe a beleza cênica da cidade, aparece em muitas fotografias, pinturas e em histórias antigas (grafadas ou contadas). Tem enorme potencial de ser a nova atração turística de Atibaia, lá do alto tem se uma visão panorâmica tanto da cidade de Atibaia, quanto da Serra do Itapetinga, um maravilhoso mirante dentro da nossa zona urbana.

Qual a opinião dos moradores a respeito dessa iniciativa?

Realizamos 2 reuniões com proprietários, ONGs, membros da prefeitura, moradores do entorno e com a colaboração dos gestores da Pedra Grande e Parque Estadual do Itapetinga. Chegou-se à conclusão que a criação de um Monumento Natural Municipal seria a melhor opção para o Morro do Saci. A primeira proposta foi modesta apenas 32ha, mas com o estímulo dos próprios proprietários chegamos a uma proposta de 234ha ainda com possibilidade de aumentar.


 Veado-catingueiro fotografado no Morro do Saci (Autor: Paul Colas)

O Monumento Natural é a única categoria de unidade de conservação que permite aliar conservação da natureza com visitação turística, sem a necessidade de desapropriações. Ou seja, os proprietários continuam sendo donos da sua porção da propriedade que eventualmente se torne unidade de conservação e o poder público também colabora com a gestão e proteção do espaço. Na prática, eles se tornam donos de um espaço importante para a cidade e contribuem para manutenção da beleza cênica diante de uma possível ocupação imobiliária desfavorável, valorizando ainda mais a região. A população da cidade também ganha um novo atrativo próximo ao centro urbano e a fauna silvestre garante sua sobrevivência.

Atibaia têm tido um crescimento urbano acentuado nos últimos anos, existe um temor que a região também possa ser afetada por esse crescimento desenfreado? O atual plano diretor da cidade é adequado para essa área?

Atibaia realmente passa por um período de acentuado crescimento, isso não necessariamente é ruim, desde que a ocupação seja ordenada e planejada. Incluir nesse crescimento a permanência de áreas verdes, de lazer e turismo dentro da mancha urbana é também uma forma de garantir bem-estar e saúde a população.

A proposta ganhou corpo com o intuito de evitar uma ocupação desfavorável e visando a permanência de áreas verdes dentro da mancha urbana. O apoio da prefeitura de Atibaia também tem sido importante. No momento, o morro do Saci não está inserido na mancha urbana, mas no futuro, pode ser que seja um remanescente verde dentro da cidade. Mas para isso é preciso planejamento prévio das áreas que podem ser ocupadas e das áreas que devem ser conservadas.

Na sua opinião as leis municipais são suficientes para proteger as áreas de mata nativa da cidade? Existe um combate adequado ao desmatamento?

Além das leis municipais, há as leis estaduais e também as nacionais que incidem sobre Atibaia na proteção as áreas de mata nativa. Em alguns casos as leis municipais são até mais restritivas que as estaduais e nacionais. Com a nova plataforma de protocolo da prefeitura de Atibaia (o 1Doc) vejo que a população tem colaborado muito na fiscalização ambiental da cidade. Mas ainda não tivemos tempo para ver os desdobramentos dessas ações. Mas minha perspectiva é muito boa.

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