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Quando a terapia se torna rede de apoio: a solidão das famílias atípicas

História de Theo, de 11 anos, mostra os desafios enfrentados por famílias de crianças com TEA e o papel das equipes terapêuticas no acolhimento e orientação dos cuidadores

Foto: Divulgação/Magnific

O diagnóstico de autismo traz mudanças profundas na rotina da família. Junto com os desafios relacionados ao desenvolvimento da criança, muitas famílias atípicas convivem com a sobrecarga emocional, o afastamento gradual de amigos e familiares e a sensação de enfrentar essa jornada praticamente sozinhas.

A história de Aline e Theo, moradores de Atibaia (SP), representa essa realidade. Theo recebeu o diagnóstico de autismo ainda na primeira infância e, desde então, a família enfrentou desafios relacionados à adaptação escolar, ao acesso aos tratamentos e à construção de uma rotina que respeitasse as necessidades do filho. Ao longo dessa trajetória, a rede de apoio tradicional foi diminuindo, e a equipe terapêutica passou a ocupar um espaço que extrapolou o atendimento clínico, tornando-se uma referência de acolhimento, orientação e suporte para toda a família.

Hoje, aos 11 anos, Theo é acompanhado há oito anos por uma equipe multidisciplinar. Nesse período, acumulou avanços importantes na comunicação, na autonomia e na participação nas atividades do dia a dia, conquistas que também transformaram a rotina dos familiares.

"Muitas vezes, a nossa rede de apoio é a nossa equipe terapêutica. Quando o Theo era pequeno, para eu conseguir almoçar, a terapeuta chegava em casa, entrava com ele para o quartinho e começava as atividades para que eu pudesse ter alguns minutos para mim. Sozinho, a gente não consegue", relata Aline.

Neste ano, após dedicar a rotina exclusivamente aos cuidados com o filho durante anos, Aline conseguiu iniciar uma retomada gradual da vida profissional, uma mudança que ela atribui diretamente ao suporte construído ao longo do acompanhamento terapêutico.

Segundo Giovana Gomes, terapeuta e Coordenadora Regional do Grupo Conduzir que acompanha Theo desde os três anos de idade, o trabalho com famílias atípicas envolve também acolher e fortalecer os cuidadores, especialmente quando a rede de apoio familiar é reduzida. Ela ressalta que os impactos do desenvolvimento da criança também se refletem diretamente no bem-estar dos cuidadores, mas que a sobrecarga vivida por eles ainda recebe pouca atenção. 

"A sobrecarga aparece no cansaço, na reorganização da rotina, na renúncia à vida profissional e na dificuldade de encontrar apoio. Cuidar da família também é cuidar da criança", completa a terapeuta.

Durante o acompanhamento, Theo ampliou suas formas de comunicação por meio da Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). Mesmo sendo um adolescente não verbal, passou a expressar desejos, escolhas e necessidades de diferentes maneiras, utilizando gestos, olhar e recursos de comunicação alternativa. Além disso, desenvolveu maior autonomia em atividades da vida diária, como o uso do banheiro, e conquistou habilidades construídas ao longo de anos de trabalho conjunto entre equipe e família.

"Costumo dizer que o Theo fala com o olhar, porque quem convive com ele aprende a reconhecer a potência da sua comunicação nas expressões, na intenção e na forma como ele se relaciona com o outro", afirma a terapeuta. Para ela, cada conquista representa muito mais do que uma habilidade adquirida. "Os avanços carregam uma história de dedicação, vínculo, persistência e respeito ao tempo de desenvolvimento de cada criança. Quando o Theo conquista mais autonomia, toda a família também conquista mais qualidade de vida", destaca Giovana.

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