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O Brasil tem capacidade elétrica para sustentar a corrida dos data centers?
Márcio Pinheiro. empresário com trajetória nos setores de energia e infraestrutura avalia como o crescimento de grandes cargas amplia os desafios de geração, transmissão e segurança do fornecimento elétrico.
Foto: Divulgação
Servidores processando dados, sistemas de refrigeração e equipamentos de segurança funcionam sem interrupção dentro de um data center. Essa operação exige energia em grande escala, fornecimento contínuo e conexões capazes de suportar cargas elevadas. Dados da Empresa de Pesquisa Energética, instituição responsável pelos estudos que orientam a expansão do setor, mostram que os projetos em processo de conexão à rede básica somavam 26,2 gigawatts no fim de 2025.
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Márcio Pinheiro, empresário cuja trajetória inclui mais de duas décadas de experiência nos setores de energia e infraestrutura, avalia que a chegada desses empreendimentos exige uma análise que vá além da quantidade de eletricidade produzida no país. “O Brasil possui grande potencial de geração, especialmente por fontes renováveis, mas isso não significa que toda essa energia esteja disponível no local e no momento em que um data center precisa. A conexão depende da capacidade das linhas, das subestações e da estabilidade do sistema”, afirma.
O volume registrado pela EPE representa a demanda informada pelos projetos, e não a confirmação de que todos serão construídos. A concretização depende de viabilidade financeira, acesso à transmissão, infraestrutura de telecomunicações, licenciamento e cumprimento das garantias exigidas para a conexão. Ainda assim, a quantidade de pedidos sinaliza uma transformação relevante no perfil do consumo brasileiro de energia.
A maior concentração está em São Paulo, principalmente nas regiões metropolitanas da capital e de Campinas e Barueri. Estudos da EPE já recomendaram cerca de R$ 1,6 bilhão em obras de transmissão capazes de abrir uma margem de conexão próxima de 4 gigawatts. Novos reforços em análise podem acrescentar outros 5 gigawatts de capacidade no estado.
O Nordeste também aparece nessa disputa. Um estudo prospectivo da EPE identificou o interesse de 30 projetos de data centers na região, com demanda conjunta de 8,3 gigawatts até 2038. A mesma rede poderá receber ainda projetos de hidrogênio, outra atividade intensiva em eletricidade, o que aumenta a necessidade de coordenar investimentos e estabelecer prioridades.
O desafio envolve potência e disponibilidade. Um data center precisa operar durante 24 horas, inclusive quando a produção solar diminui ou os ventos ficam menos favoráveis. Fontes renováveis podem atender boa parte do consumo, mas o sistema necessita de mecanismos que ofereçam flexibilidade e segurança, como baterias, hidrelétricas, termelétricas de apoio e contratos com diferentes fontes.
Na avaliação de Márcio Pinheiro, o crescimento de consumidores intensivos em energia reforça a necessidade de considerar não apenas a capacidade instalada de geração, mas também a infraestrutura necessária para que o fornecimento chegue ao consumidor com continuidade e segurança.
A localização se torna uma decisão estratégica. Instalar um empreendimento próximo a áreas com geração abundante pode reduzir alguns gargalos, desde que existam linhas de transmissão e telecomunicações. Regiões com água, terrenos e incentivos disponíveis também precisam avaliar o impacto sobre a rede local e sobre os demais consumidores antes de autorizar grandes conexões.
“Projetos dessa dimensão precisam avançar em sintonia com o planejamento energético. Se a expansão da carga ocorrer antes dos reforços na rede, surgem atrasos e riscos operacionais. Se o sistema for ampliado para empreendimentos que não saem do papel, o país pode investir em estruturas que permanecerão subutilizadas”, explica Pinheiro.
Na análise de Pinheiro, o avanço de atividades com consumo energético elevado também evidencia a importância do planejamento de longo prazo e de uma infraestrutura capaz de acompanhar mudanças no perfil da demanda.
A corrida por data centers traz oportunidades ligadas à inteligência artificial, à computação em nuvem e ao armazenamento local de informações. Também pode atrair investimentos, movimentar a construção civil e ampliar a demanda por serviços especializados. O benefício econômico dependerá da capacidade de selecionar projetos maduros e distribuir os custos de expansão sem pressionar indevidamente as tarifas de energia e comprometer a sustentabilidade do sistema.
O Brasil reúne fontes renováveis, extensão territorial e um mercado digital em crescimento, mas a rede precisa avançar no mesmo ritmo dos anúncios. Os estudos em andamento mostram que há caminhos para ampliar a capacidade. A velocidade das obras, a localização dos projetos e a qualidade das garantias apresentadas definirão quantos data centers realmente conseguirão entrar em operação nos próximos anos.
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